16 de junho de 2026

O fim do antilulismo automático, por Luís Nassif

Aparentemente, caiu a ficha do que significaria para o país — e para a mídia hegemônica — uma eventual vitória do bolsonarismo.
Reuters - Reprodução

A cobertura da operação Master pela Globo foi enviesada, focando STF e Lula em vez do Centrão e DF.
O vazamento da conversa entre Vorcaro e Flávio Bolsonaro mudou a narrativa e alertou para o risco bolsonarista.
O Globo passou a destacar dados relevantes da pesquisa Quaest, mostrando maior distância entre Lula e Bolsonaro.

Esse resumo foi útil?

Resumo gerado por Inteligência artificial

Os movimentos da mídia são curiosos. De um lado, as preferências políticas. De outro, os movimentos conduzidos por vazamentos direcionados. E, no meio, a necessidade de equilibrar posições — de disfarçar as preferências políticas por trás de uma suposta isenção jornalística.

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

A manipulação das narrativas começa na seleção dos fatos que merecem manchete de primeira página ou título de matéria. Com frequência, a cobertura se torna prisioneira de fontes privilegiadas, que entregam informações exclusivas — ou vazamentos de inquéritos — de modo a direcionar a pauta. O efeito-manada e o jornalismo-sela — a imprensa encilhada pela fonte, montada e conduzida por ela — são personagens recorrentes.

Faço essa introdução para uma análise do jornalismo da Globo, em especial do jornal O Globo e da GloboNews (confesso que não tenho assistido ao Jornal Nacional e ao Fantástico).

Quando começou a operação Master, uma parceria entre peritos lavajatistas e jornalistas lavajatistas de O Globo e da GloboNews enviesou totalmente a cobertura. O que era um escândalo do Centrão e do governo do Distrito Federal transformou-se em escândalo do Supremo Tribunal Federal e em tentativa de jogar Lula e o PT para o centro do caso. Caminhou-se para um ensaio de Lava Jato 2, cujo ápice foi o PowerPoint de Andréia Sadi. Via-se, com clareza, uma perda de rumo da direção — tanto do jornal quanto da GloboNews.

O desgaste foi imediato. As críticas explodiram em todos os canais digitais. E a marcha foi interrompida pelo vazamento da conversa entre Daniel Vorcaro e Flávio Bolsonaro, divulgada por um jornal alternativo, o The Intercept.

Esse foi o ponto de virada que alertou os jornais: manter o antilulismo irracional significaria fortalecer as organizações que se escondem por trás do bolsonarismo.

Pode ter sido um clarão ocasional ou uma tomada de posição racional. Mas quem acompanha O Globo percebeu uma mudança radical no tratamento das matérias políticas. Um exemplo: a Quaest solta uma pesquisa. A nota relevante é o aumento da distância entre Lula e Flávio Bolsonaro. O eixo Estadão-Veja preferiu destacar a visão negativa em relação a Lula, empatada com a positiva. Já O Globo foi pródigo em praticar jornalismo e conferir à pesquisa os destaques efetivamente relevantes: o aumento da diferença entre Lula e Bolsonarinho e a diminuição da rejeição a Lula entre os evangélicos. Na própria GloboNews, a ala da direita não poupa críticas a Flávio Bolsonaro.

Aparentemente, caiu a ficha do que significaria para o país — e para a mídia hegemônica — uma eventual vitória do bolsonarismo. De um lado, o desmonte de qualquer veleidade de transformar o país em uma Nação. De outro, o tiroteio direto contra a mídia convencional, em favor das redes mais ligadas aos evangélicos.

Muita água ainda vai rolar, há muita narrativa no ar e muito amadorismo na edição dos jornais. Mas, ao menos nestes últimos dias, ficou a impressão de uma retomada da racionalidade.

LEIA TAMBÉM:

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

9 Comentários
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. Carioca

    11 de junho de 2026 9:52 am

    Não há novidades abaixo da linha do equador … simplesmente avisam que pra que lado for serão a favor … desde quando não foi assim ?

  2. Joao

    11 de junho de 2026 10:08 am

    Mouro o eterno otimista

    1. emerson57

      11 de junho de 2026 12:39 pm

      Não há nada errado em ser um eterno otimista.
      Mesmo quando se está pessimista.
      Ser otimista é qualidade que aprecio em qualquer ser humano.

  3. Eric Bonfim

    11 de junho de 2026 12:03 pm

    Concordo totalmente e tambem tenho percebido isso.

  4. emerson57

    11 de junho de 2026 12:36 pm

    Tenho certeza abslouta:
    Trata-se de “impressão de uma retomada da racionalidade.”
    O PIG e as zélites nativas (e seus puxa sacos!) preferem entregar o pais para o capeta em pessoa do que para quem defende algumas migalhas para os pobres.

  5. Tadeu Silva

    11 de junho de 2026 12:47 pm

    Corda trêmula.

  6. fabricio coyote

    11 de junho de 2026 1:06 pm

    entendi. então os 129 milhões de motivos que o kojac tem para se explicar evanesceram como uma sílfide que transpassa as cortinas do proscênio. e o beijo do banqueiro implicado em ministro do supremo nada mais é de que uma miragem, afinal, num resort as miragens são recorrentes…

    veremos como será o nosso próximo congresso. que aí o jogo também é brutal, uma vez que as eleições vindouras são as majoritárias!

    e viva a Democracia en(cu)rralada!

  7. grevista

    11 de junho de 2026 8:19 pm

    Talvez, quem sabe, os acordos entre o lulismo e os interesses representados pela Globo já tenham sido feitos. A autonomia do BC está indo de vento em popa, com nenhuma resistência do governo, além dos grilos falantes permitidos de sempre. A resistência do governo ao PL da dosimetria foi teatral. Qualquer pequena mudança na reforma bolsonarista da previdência de 2019 foi vetada, Zanin e AGU agindo em conjunto, além de mudança de voto de Alexandre. Pairando sobre isso, há Galípolo, livre, leve e solto, e Lula incrivelmente mudo. Ah! Também há a volta de Daniel Dantas ao circuito das privatizações, que sonhou em dominar as teles, mas domina agora as duas principais companhias de saneamento e a água que mineiros e paulistas consomem.

  8. Silvio Torres

    12 de junho de 2026 8:54 pm

    Tomara que estejas certo, Nassif. Quando se trata de imprensa brasileira, especialmente a globo, fico sempre com a fábula já citada tantas vezes por você do sapo e do escorpião.
    Mas, já que você trouxe à baila esses temas e confessou que não tem assistido o jornal dos marinho, não resisto a um momento Leão Lobo. Tenho me divertido com o festival de enganos proporcionado pelas desastrosas mudanças feitas pela globo. Focando apenas no lado profissional e artístico dos envolvidos, a saída precoce do bonner foi um tiro no coração do jn. Cesar tralli, que nadava de braçada na hora do almoço, virou um peixe fora d’água à noite. Como leitor de TP, não tem a voz, a aparência e a credibilidade do ex. Sem liberdade para improvisar e comentar, murchou. E o Kovalik, coitado, sem a menor capacidade para ir pouco que seja além do texto, revelou-se um dos maiores canastrões da tv brasileira. Suas caras e bocas e seus comentários desastrados e infelizes provocam riso, pena e constrangimento em quem assiste. Era melhor ter ficado convenientemente escondido na alvorada.

Recomendados para você

Recomendados